terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Começo

É o cansaço amortecendo os membros
É o excesso amortecendo a mente
É a vergonha amortecendo a fala
É a falta amortecendo a vontade

Passo a passo

Lentamente perdendo os sentidos
Intensamente gritando a penúria
Inutilmente largando a causa

Fim.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Deixe de história

Pode ser que não haja mais para onde ir. Presos na trincheira da nostalgia, não vamos sucumbir. Inerente a nós é esta vontade de resistir aos ataques cujo som não nos ensurdece mais. Já estamos surdos. Surdos mudos que invejam os cegos que não vêem todo o horror que vemos. Enquanto alguns morrem de fome, morremos de dor que não sentimos. Morre em nós o que foi feito por nós e o que ainda não fizemos. Queremos gritar a intifada do sentimento mas somos mudos. A mordaça branca é cruel. Estamos sozinhos. Não temos uns aos outros. Não temos pais, mães, irmãos, esposas, maridos, filhos, amigos, vizinhos. Presos, mísseis de papel e palavra batem à nossa porta e não ouvimos. Estão nos carregando, e chove. Todos sentem nossa falta sem saber como é o nosso rosto nem como soa a nossa voz.
Estamos calados.
Estamos feridos.
Estamos mortos.
Suicídio em massa e nosso sangue negro tinta fria pelo chão.
Falem de nós.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Juventude

Sons
De bons tons
Se estão, em vão
Nas mãos tão
Caladas.
Em cada armada
Idéia dada
Paixão clarão
Som anão
Nada.
Liberdade velada.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Desabafo

Sabe, não é tão fácil quanto parece. Eu faço e desfaço, e caio sempre no mesmo lugar. Não é fácil fazer mudanças assim, a torto e a direito, a mando e desmando. Nas entrelinhas a infelicidade estampada a ferro e fogo e ferida. Não é fácil assim tirar de mim o que me faz tão deformada. Esse monstro que sou é como no romance, pedaços de pessoas que já foram. Pedaços de mim mesma que já deviam ter ido mas ficam ali, à espreita, esperando o momento perfeito para acabar com o momento perfeito. É meu esse talento de destruir tudo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O amar e o amor de quando em vez desencontrados, normalmente desencontrados. Dois mundos que se não tocam. Por cada amor há alguém que ama e alguém amado, à vez. O amar e o amor. Puxar uma corda sem que alguém resista no outro extremo. Amar é perder a vez de ser amada. Mas quando sou e se porventura sou então descanso e aproveito. O amar e o amor, dois mundos que se não tocam. Quem me quer amante e eu que me quero sempre amada (não queremos todos?). Saber-te amante e ao mesmo tempo amar-te com todo o amor que consiga. Amares-me também até doer. Amar-te e por isso desejar que vás primeiro para que não sintas a minha falta, ou antes desejar ser eu a ir primeiro porque eu me sei incapaz de aqui ficar sem ti, de viver sem ti. Dois mundos que se não tocam. O amor e amar, amar e não apenas ser amável, dois mundos.

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?"
Fernando Pessoa

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Privação

Dos outros, nada me interessa. Dos que me rodeiam e se me insinuam, puxando daqui, empurrando de acolá, acotovelando-me gentilmente a atenção, nem dou conta. Não importa se me oferecem flores, jantares caros, palavras difíceis ou sorrisos únicos, nem se me cantam, ao ouvido esquerdo, a canção do bandido, ou me sussurram, ao direito, clichés repisados, descobertas científicas e verdades absolutas. Relevo-lhes a poesia medíocre e a prosa sentida, trespasso-lhes as transparências e vou à minha vida, que é você. Não me tento por desvios ínvios ou atalhos fáceis, não cedo a distrações de feira nem a truques para inglês ver e ignoro olimpicamente o barulho das luzes, nesta concentração absoluta no propósito de te amar. Os demais não te obstaculizam, simplesmente, não existem, de fato: detenho-me na tua onipresença e isso por agora me basta. O amor não me cega, antes, priva-me de qualquer visão periférica.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O que é

Baby I've been here before
I've seen this room and I've walked this floor
You know, I used to live alone before I knew you
And I've seen your flag on the marble arch
and love is not a victory march
it's a cold and it's a broken hallelujah

Leonard Cohen